No Brasil, o hanky code deixou de ser um mapa funcional e se tornou um totem cultural — menos sobre “o que você quer fazer” e mais sobre “quem você é e de onde vem”.
No universo das subculturas e fetiches, a comunicação nem sempre precisa de palavras. O uso de cores e materiais específicos, frequentemente através de lenços, funciona como uma linguagem visual poderosa para comunicar interesses, desejos e papéis sexuais de forma discreta e direta.
O que são essas cores e como usá-las?
O sistema é baseado em um código de sinalização onde a escolha da cor e, crucialmente, o lado onde ela é usada, define a mensagem.
Antes de mergulharmos na tabela detalhada, é fundamental entender o contexto histórico e a lógica por trás dessa forma de comunicação. Muito antes dos aplicativos de namoro ou da internet, a comunidade LGBTQ+ e a subcultura de fetiches desenvolveram um sistema engenhoso e discreto para comunicar desejos sexuais e preferências de papéis sem a necessidade de uma conversa inicial: o código dos lenços (ou hanky code).
Este sistema surgiu como uma ferramenta de segurança e eficiência. Em ambientes onde a discrição era necessária, o simples ato de colocar um lenço de uma cor específica no bolso de trás da calça servia como um "anúncio visual". A grande sacada deste código não está apenas na cor escolhida, mas em qual lado do corpo ela é exibida:
• Lado Esquerdo (Left): Indica que você é o "Top" ou o parceiro ativo/prestador naquele fetiche ou prática específica.
• Lado Direito (Right): Indica que você é o "Bottom" ou o parceiro passivo/receptor.
Com o tempo, o código se expandiu para além das cores primárias, incorporando diferentes tecidos (como renda, cetim e veludo), padrões (como estampa de leopardo ou paisley) e até objetos inusitados (como escovas de dente ou sacos plásticos) para sinalizar nichos muito específicos, desde preferências por tipos físicos até logísticas de encontro.
Abaixo, apresentamos a tabela completa para que você possa decifrar essa linguagem visual fascinante e complexa.
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Cor |
Lado esquerdo (ativo / quem pratica) |
Lado direito (passivo / quem recebe) |
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Preto |
Top S&M intenso |
Bottom S&M intenso |
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Cinza |
Top de bondage |
Bottom de bondage |
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Verde caçador |
Daddy |
Busca Daddy |
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Vermelho escuro |
Fisting avançado (ativo) |
Fisting avançado (receptivo) |
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Vermelho |
Fisting |
Recebe fisting |
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Azul marinho |
Ativo sexual |
Passivo sexual |
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Azul claro |
Quer receber oral |
Especialista em oral |
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Amarelo |
Fetiche em urina (ativo) |
Fetiche em urina (receptivo) |
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Cinza carvão |
Fetiche em látex (top) |
Fetiche em látex (bottom) |
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Fúcsia |
Pratica spanking |
Recebe spanking |
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Rosa escuro |
Tortura de mamilos (ativo) |
Tortura de mamilos (receptivo) |
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Rosa claro |
Uso de dildo (ativo) |
Uso de dildo (receptivo) |
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Marrom |
Scat (ativo) |
Scat (receptivo) |
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Ferrugem |
Papel de cowboy |
Papel de cavalo |
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Coral |
Fetiche por pés (ativo) |
Fetiche por pés (receptivo) |
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Mostarda |
Dotação grande |
Busca dotação grande |
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Dourado |
Casal busca terceiro |
Solo busca casal |
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Damasco |
Corpo grande/gordo |
Admirador de corpos grandes |
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Bege claro |
Aprecia charutos |
Fetiche relacionado |
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Bege |
Rimming (ativo) |
Rimming (receptivo) |
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Amarelo pálido |
Fetiche em saliva (ativo) |
Fetiche em saliva (receptivo) |
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Verde limão |
Vive de trocas/favores |
Disponível para encontros |
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Verde Kelly |
Profissional do sexo |
Cliente |
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Verde oliva |
Roleplay militar (top) |
Roleplay militar (bottom) |
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Verde Tiffany |
Prática de 69 |
Prática de 69 |
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Verde azulado |
CBT – ativo |
CBT – receptivo |
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Azul médio |
Papel de policial |
Fetiche por policial |
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Malva |
Interesse em fetiche de umbigo (ativo) |
Fetiche de umbigo |
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Magenta |
Fetiche por axilas (ativo) |
Fetiche por axilas (receptivo) |
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Vinho |
Fetiche menstrual (interesse) |
Pessoa menstruada |
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Lavanda |
Aprecia drag |
Drag |
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Roxo |
Perfurações (piercer) |
Tem piercings |
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Prateado |
Interesse em pessoas famosas |
Pessoa famosa |
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Dourado metálico |
Gosta de musculosos bottoms |
Gosta de musculosos tops |
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Renda marrom |
Não circuncidado |
Prefere não circuncidado |
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Cetim marrom |
Circuncidado |
Prefere circuncidado |
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Estampa animal |
Tem tatuagens |
Gosta de tatuagens |
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Veludo preto |
Produz conteúdo/vídeos |
Atua para câmeras |
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Ursinhos |
Gosta de carinho |
Gosta de receber carinho |
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Camurça |
Motociclista |
Gosta de motos |
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Doily |
Encontros discretos (ativo) |
Encontros discretos (passivo) |
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Lenço branco |
Massagem com óleo quente |
Aprecia receber |
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Boneca Kewpie |
Mais submisso |
Busca parceiros submissos |
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Tela de mosquiteiro |
Cheiro corporal forte |
Fetiche por odores |
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Paisley |
Usa cueca boxer |
Gosta de cueca boxer |
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Escova de dentes |
Local disponível |
Prefere ir ao local do outro |
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Saco plástico |
Uso de substâncias |
Busca substâncias |
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Jockstrap |
Fetiche por gear usado |
Fetiche por gear usado |
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Guardanapo |
Bartender |
Frequentador fiel |
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Flanela cinza |
Usa terno |
Aprecia ternos |
É importante destacar que as informações apresentadas nesta tabela foram extraídas e traduzidas do site oficial do Eagle LA (https://eaglela.com/hanky-code/), servindo como um guia histórico e prático sobre o código dos lenços. O conteúdo detalha como diferentes cores, tecidos e até objetos sinalizam desejos específicos, dependendo se são usados do lado esquerdo ou direito do corpo,. Essa padronização permite que os praticantes identifiquem desde preferências por papéis em práticas de S&M e bondage até interesses em nichos como fetiches por uniformes, tatuagens ou materiais específicos como látex e veludo.
A aplicação do hanky code no cenário do fetiche brasileiro apresenta um contraste fascinante entre a preservação da história LGBTQ+ e os desafios práticos de uma comunicação altamente codificada. Embora as fontes forneçam uma lista exaustiva de significados — variando desde cores sólidas como o Preto (S&M Pesado) e o Vermelho (Fist Fucking) até materiais complexos como o Veludo Preto (vídeos) ou o Cetim Marrom (circuncidados) —, a eficácia desse sistema no Brasil enfrenta barreiras culturais e logísticas significativas.
Aqui estão alguns pontos críticos sobre o uso desse código no recorte brasileiro:
• Complexidade e Memorização: O nível de especificidade detalhado nas fontes é quase enciclopédico. É difícil imaginar que, no dinamismo de uma festa voltada para fetiche no Brasil, a maioria dos participantes consiga distinguir prontamente entre o significado de "Fúcsia" (Spanker), "Mauve" (Fetiche em umbigo) ou "Magenta" (Fetiche em axilas). Essa saturação de informações pode transformar um sistema que deveria ser facilitador em um enigma confuso, onde a mensagem corre o risco de ser ignorada ou mal interpretada.
• Barreiras de Tradução e Contexto Cultural: Muitas das sinalizações presentes nas fontes são profundamente enraizadas na cultura norte-americana. Por exemplo, o uso de "Kewpie Doll" para sinalizar jovens ou Verde Militar para "Militar" reflete gírias e estéticas de nichos específicos dos EUA que podem não ter a mesma ressonância ou clareza visual no Brasil. Além disso, itens como o Sacos de Plástico (sinalizando a presença ou procura por drogas) carregam implicações legais e de segurança que podem variar drasticamente entre as jurisdições brasileira e americana.
• O Desafio dos Materiais: O código original utiliza não apenas cores, mas texturas específicas como Lace (Renda), Lame (Prateado) ou Chamois (Camurça). No clima tropical brasileiro e considerando o acesso a certos tecidos, a manutenção dessa sinalização rigorosa torna-se um exercício de nicho, muitas vezes restrito a colecionadores ou frequentadores assíduos de clubes de elite, perdendo o caráter popular e democrático que o sistema teve em sua origem.
Informação fora das fontes: Vale notar que, no Brasil contemporâneo, a comunicação de fetiches migrou majoritariamente para o ambiente digital (aplicativos e redes sociais), onde "tags" e perfis detalhados substituíram a necessidade do lenço físico. No entanto, o retorno do hanky code em festas brasileiras tem sido visto mais como um acessório estético de identidade e resistência política do que como uma ferramenta funcional de engate.
Em resumo, utilizar o hanky code no Brasil hoje é como tentar falar um dialeto arcaico em uma metrópole moderna: embora a gramática seja rica e cheia de nuances históricas, a maioria das pessoas ao redor provavelmente só entenderá os "gritos" (as cores básicas como Vermelho ou Amarelo), enquanto as sutilezas do "veludo" ou da "renda" acabarão se perdendo no barulho da festa.
E você? O que você acha?